Análise da abertura de ‘American Gods’

As aberturas de seriados se tornam a identidade visual desses programas. Ouvir as canções tema de séries ou ver imagens utilizadas nas sequências que antecedem o começo de cada episódio ajuda o telespectador a associá-las à história. No caso de “American Gods“, a abertura, além de ter uma beleza sombria e hipnótica, faz inúmeras referências aos temas centrais da trama misturando a iconografia religiosa, o imaginário da cultura norte-americana e a onipresença da tecnologia na vida contemporânea. Dissecamos a sequência quadro por quadro para entender melhor as mensagens e o simbolismo que a compõem.

1. Produção

Antes de mais nada, vale a pena saber que a abertura de “American Gods” foi criada pela equipe do estúdio Elastic. A empresa tem em seu portfólio sequências que abrem seriados como “Carnivale“, “Game of Thrones“, “Daredevil“, “Westworld“, “The Young Pope” e “The Crown“, além de ter criado os vídeos do site Pottermore (sobre o universo de Harry Potter). Tão importante quanto os aspectos visuais da abertura, a música tema é composta por Brian Reitzell, que já trabalhou anteriormente com Bryan Fuller em “Hannibal” e também participou da trilha-sonora dos filmes “Encontros e Desencontros” (“Lost In Translation“), “Mais Estranho que a Ficção” (“Stranger than Fiction“) e “30 Dias de Noite” (“30 Days of Night“). O vocal da canção, de sonoridade semelhante a um mantra e estranhamente sensual, é executado pela cantora Shirley Manson, vocalista da banda Garbage.

2. Árvore da Vida


As imagens da abertura formam um totem gigantesco cuja base é Yggdrasil, a Árvore da Vida da mitologia nórdica, eixo do universo, conecta os nove mundos da cosmologia nórdica (Midgar, o mundo dos homens, Asgard, o mundo dos deuses, Vanaheim, o mundo dos Vanir, Helheim, o mundo dos mortos, Svartaalfheim, mundo dos anões, Alfheim, o mundo dos elfos, Jotunhim, o mundo dos gigantes de pedra e gelo, Niflheim, o mundo de gelo eterno e Muspelheim, mundo de fogo.
[Spoiler do livro: Selecionar para ler A imagem também é uma referência à Árvore do Mundo, localizada na Virgínia que terá um papel importante na existência de Shadow e Wednesday e na relação dos dois.Termina aqui.]

3.Medusa


O ícone seguinte é a cabeça de uma estátua que retrata a Medusa, monstro da mitologia grega cheia de víboras na cabeça e capaz de petrificar quem a olha. Na abertura, seus cabelos são feitos de fibra ótica, utilizada nas telecomunicações, para transmissão de sinais, nos cabos de submarinos e na medicina, nos aparelhos de endoscopia. A imagem mescla símbolos do mundo antigo com ferramentas do mundo moderno.

4. Três Graças


As três Graças, Tália, Eufrosina e Aglaia, são deusas gregas da beleza, natureza e fertilidade, retratadas na arte antiga e renascentista. Aqui elas são transformadas em ciclopes, monstros da Grécia com um olho só e também ganham uma releitura tecnológica, pois os globos oculares dessas figuras foram substituídos por câmeras. A imagem é uma provável referência à vigilância em nome da qual a humanidade contemporânea sacrifica sua privacidade e ao exibicionismo narcisista da geração dos reality shows e selfies.

5. Chanukiá


O candelabro Chanukiá é um símbolo do judaísmo, utilizado pelos adeptos dessa religião durante o feriado de Hanuká, a festa das luzes, que celebra a libertação do povo judeu contra o domínio dos gregos e a reconstrução do Segundo Tempo na Judeia. O judaísmo é a raiz de duas grandes religiões monoteístas: o cristianismo e o islamismo. Falando em monoteísmo, no papel de parede atrás do objeto sagrado há três símbolos. São eles a estrela dos judeus, a cruz dos cristãos e o crescente do muçulmanos. A tradição religiosa é mais uma vez confrontada com a tecnologia, pois em cada um dos nove braços do candelabro há entradas para tomadas e plugues.

6. Madonna


Maria, a humana que segundo a tradição cristã seria a mãe do Filho de Deus, é uma das figuras mais representadas no Ocidente. Também conhecida como Nossa Senhora e Madonna, ela é retratada em um grande número de esculturas do renascimento em que se baseia a imagem do quadro seguinte da abertura. Seu tradicional véu aqui não é feito de mármore, mas é uma espécie de tecido que poderia ser um apetrecho de “wearable technology” (tecnologia vestível) e parece ser feito com chips de silicone. A Madonna hi-tech é mais uma mistura ciberpunk de ícones da religião antiga com os avanços da ciência.

7. Buda


A próxima figura é uma estátua dourada de Buda, ou Siddartha Gautama (nascido por volta do ano 563 antes de Cristo), fundador do sistema filosófico que carrega seu nome. A doutrina é não-teísta e prega valores como ética e desapego, além de sustentar que a salvação vem do autoconhecimento. A presença de Buda na abertura é a primeira referência às tradições orientais, uma vez que o budismo surgiu na Índia e foi disseminado para a China, Tibete e Japão. O “equilíbrio” e a “tranquilidade” do Buda da abertura de “American Gods” são alcançados não pela meditação ou autoconhecimento e sim graças a capsulas, o que possivelmente remete ao alto consumo de antidepressivos pela sociedade norte-americana e à dependência do homem moderno em relação à indústria farmacêutica.

8. Ganesha


Mais uma vez a abertura remete às crenças orientais ao mostrar o deus Ganesha, divindade do hinduísmo considerado como removedor de obstáculos, chefe do exército celestial e deus da sabedoria. Seu pedestal é formado por turbinas e por agulhas que lembram apetrechos utilizados na tecnologia reprodutiva e na engenharia genética.

9. Pirâmides


As pirâmides são estruturas utilizadas por muitas religiões antigas e associadas principalmente à civilização do Egito Antigo. Grande parte delas serviu como túmulo para os faraós. Para os egípcios daquela época, a morte estava relacionada ao deus Anúbis, representado com uma cabeça de chacal. Divindade dos mortes, ele conduzia as almas ao submundo e também é relacionado com a mumificação. Na pirâmide de “American Gods“, Anúbis é substituído por um cão robô parecido com o Aibo, desenvolvido pela Sony.

10. Cowboy


A figura seguinte está menos relacionada com religiões e mais com simbolismo dos Estados Unidos. Popularizado no século 20 pelos filmes do gênero de faroeste, o cowboy se tornou um arquétipo da cultura norte-americana e um ícone da masculinidade. Na abertura, ele surge como um enfeite de néon, cuja perna é substituída por uma prótese. No imaginário popular, não há cowboy sem cavalo. Ele é mostrado na sequência junto a um centauro robô, cujo busto é feminino e a cabeça tem o formato do rosto de uma boneca inflável, ligando a imagem à pornografia, tão presente na vida da população ocidental.

11. Anjo

A escultura une fé, tecnologia e estereótipos dos Estados Unidos. Na essência, a estátua forma um anjo, que segundo a Bíblia seriam seres celestiais que atuam como mensageiros de Deus. Como na iconografia ocidental, a entidade da abertura tem casas. Porém, mais do que um ajudante da aproximação entre homens e Deus, o ser celestial de “American Gods” porta apetrechos militares, ligando o à indústria da guerra dos Estados Unidos, à seu valor como potência bélica e ao clichê que liga o país ao militarismo. Assim, o anjo da abertura pode funcionar como Anjo da Morte, que nas tradições judaicas era conhecido como Samael.

12. Carros


Ser proprietário de carros esportivos faz parte do imaginário do American Dream (sonho americano) e também está ligado à potência masculina. Essa seção da abertura mostra vários automóveis do tipo. Entre eles se encontra uma estátua gigantesca que lembra um deus ou herói grego. A escultura porta o que parece ser um arco, objeto relacionado na mitologia da Grécia com Apolo. Em vez de flechas, ele aponta um míssil. Ou seja, faz mais uma referência à cultura bélica norte-americana e seu poderio de armas de destruição em assa.

13. Ônibus Espacial


Na parte seguinte, um ônibus espacial é lançado, uma referência ao programa espacial norte-americano. A corrida para produzir naves, satélites e outros equipamentos espaciais destacou os Estados Unidos a partir do século 20.

14. Astronauta


A abertura mostra mais um símbolo da corrida espacial da qual participou os Estados Unidos (em oposição à Rússia) e da importância dessa tecnologia para o imaginário da cultura norte-americana. A figura central dessa sequência é um astronauta. Contudo, o homem do espaço não surge em uma pose comum, ele remete ao cristianismo pois aparece pregado em uma cruz como Cristo. A imagem mistura poder e martírio/sacrifício, dois conceitos importantes para “American Gods“.

15. Águia


No topo do totem surge a estátua do que parece ser uma águia-de-cabeça-branca, pássaro nacional dos Estados Unidos, presente em artigos relacionados ao governo federal desse país como moedas, selos e logos. A espécie era considerada sagrada para muitas culturas nativas e também vistas como mensageiras espirituais entre deuses e homens. A ave também pode ser uma referência ao Thunderbird (Pássaro-trovão), criatura lendária dos povos indígenas que viveram nos Estados Unidos. [Spoiler do livro: Selecione para ler A ave tem uma participação em um importante capítulo do livro. Termina aqui]

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  • Young Wolf

    Ótima analise.
    O site tá ficando muito bom.

  • Lucas Gomes

    E eu pulava a abertura assim como pulava a de Game of Thrones… Ficou muito boa essa analise.

  • Adriano Jose da Silva

    otima analise mesmo..eu sou um aficionado sobre o assunto, teoria da conspiração, ovnis, e iluminati e realmente essa abertura traz a tona varias referencias ja tinha feito essa analise com um grupo de amigos e realmente e muito assertiva a sua analise parabéns fantástico!!