Review de “The Bone Orchard”, 1° episódio de “American Gods”

A história da humanidade é formada por uma sucessão de deslocamentos populacionais. Cada contato de homens com um solo diferente significa também a migração de suas crenças. Os deuses invocados pelos viajantes modelam a realidade dos novos ambientes e são esculpidos por ela. Povos não se formam sem fé e as entidades estão mortas sem fiéis.

Se você é um leitor de “Deuses Americanos”, está familiarizado com essa premissa. Caso você começou a assistir a adaptação do livro de Neil Gaiman sem nem espiar a sinopse na contracapa, se acostume com essas noções: elas são a essência de “American Gods”.

É nelas que se baseia também a sequência que abre o primeiro episódio do seriado. A introdução é um pequeno desvio do que é mostrado nos parágrafos do capítulo inicial do romance, porém trata-se de uma alteração (ou antecipação, se você preferir) compreensível. Como acontece no livro, a série intercala a trama central com fragmentos de acontecimentos que ligam os deuses tradicionais aos Estados Unidos, do passado ou presente.  O episódio começa acompanhando uma passagem de vikings pela América, o que ajuda a introduzir o espectador à  interdependência entre deuses e homens.

VIOLÊNCIA ESTILIZADA
Pela natureza guerreira dessa cultura nórdica, há também uma boa oportunidade para uma demonstração do estilo de filmagem e direção que podemos para a série. Há brutalidade, porém uma violência estilizada que é, contraditoriamente, atraente.

Já imaginou que iria enxergar beleza na mutilação de corpos e movimentação de sangue? Pois é, uma produção de Bryan Fuller faz isso com o espectador. Foi assim com seu trabalho anterior, o seriado “Hannibal” e , desde os primeiros minutos de “The Bone Orchard” (Ou “O pomar de ossos”), fica claro que será assim com “American Gods”. Essa experiência mista de prazer visual com o macabro com o belo se repete em outras cenas do episódio, atingindo o ápice na cena final, uma mescla de referência ao filme “Laranja Mecânica” (1971), de Stanley Kubrick, com uma matança executada com uma estética que parece saída de uma história em quadrinhos sofisticada.

As cenas também tornam evidente a ligação entre a trama e a mitologia tão importante no trabalho de Gaiman – e digamos que não é uma má ideia começar pela nórdica, por uma série de razões que ficarão mais claras conforme a temporada avançar.

Após essa espécie de prólogo, o episódio segue como uma adaptação essencialmente fiel ao material original. Em alguns momentos, o roteiro até apresenta frases que são reproduções diretas das falas ou narração do livro. Em outros, ele atualiza alguns personagens e situações para nossa contemporaneidade com mudanças bem elaboradas. Afinal, “Deuses Americanos” foi publicado pela primeira vez em 2001, as tendências da sociedade ocidental se modificam rapidamente e essas diferenças refletiriam na forma como os deuses da história se manifestam.

SHADOW
É quando o episódio começa a tomar o rumo do primeiro capítulo do romance que finalmente encontramos o protagonista da história. Como no livro, Shadow Moon (Ricky Whittle) havia cumprido três anos de prisão e está prestes a ser liberado. Sua saída coincide com a morte de sua esposa, Laura (Emily Browning), em um acidente de carro. Na viagem até o funeral, ele se envolve com um golpista que se apresenta como Sr. Wednesday (Ian McShane) e se torna empregado desse homem misterioso.

 

É fácil torcer por Shadow. Isso se dá pela atuação de Whittle, pelo esforço do personagem em agir de forma correta ao voltar para liberdade, pelas circunstâncias em que ele se encontra e principalmente por ele ser também nossos olhos. Como o espectador, o protagonista é uma pessoa que até o início da história viveu em relativa normalidade e de repente fica exposto a pessoas, sonhos e situações absurdas. Enquanto Shadow se sente confuso, o espectador passa pelas mesmas sensações. Outro elemento que tece a empatia que sentimos pela mentalidade e pelo atordoamento do protagonista é a ótima trilha sonora de Brian Reitzell.

Além disso, Shadow passa pelos primeiros passos da clássica jornada do herói, como os protagonistas de outros livros, séries e filmes de fantasia que o público-alvo de “American Gods” geralmente aprecia: espiamos seu mundo normal como detento, vemos ele ser chamado para a aventura com o convite de Wednesday, recusá-lo e passar pelos primeiros testes típicos de um protagonista das narrativas épicas. Ao mesmo tempo que ele encara o sobrenatural, Shadow se mostra um ser humano com que podemos nos identificar, por seus erros, por seu sofrimento com a morte e pela descoberta da traição de sua esposa.

INTRODUÇÕES
Os estranhos coadjuvantes que cruzam o caminho de Shadow são fascinantes (e até o momento corresponderam às minhas expectativas como fã do livro). O roteiro dá a Wednesday uma apresentação perfeita tanto em seu golpe no aeroporto quanto no primeiro diálogo com o Shadow. Suas falas não somente entretém como dão pistas inteligentes (algumas delas tão ágeis como as pistas espalhadas por Gaiman em “Deuses Americanos”). A interpretação impecável de McShane o torna envolvente, carismático e claramente o filho da mãe que esperávamos que ele fosse.

O leprechaun Mad Sweeney (Pablo Schreiber) e o Technical Boy (Bruce Langley) foram repaginados em versões que lembram hipster lenhador e jovem CEO de startup tecnológica do Vale do Silício deslumbrado com a própria esperteza, respectivamente. Mas as atualizações não modificam sua essência. Sweeney é ainda tão simpático quanto insano e seus truques com moedas ganharam aspecto interessante no audiovisual, Technical Boy continua desagradável o suficiente para despertar vontades violentas no espectador.

Porém, o melhor indício de que os leitores podem ficar mais tranquilos sobre o potencial da adaptação é a cena que provavelmente havia deixado todos mais curiosos e apreensivos. Sim, essa é uma referência à introdução da deusa Bilquis (Yetide Badaki), também conhecida como Rainha de Sabá, que consome um homem durante o ato sexual por meio de sua vagina. A adaptação dessa passagem poderia se esquivar de ser explícita e corria o risco de criar algo de mal gosto. Contudo, o resultado é sensual, bizarro, bem executado e demonstra a excitação combina com desespero dos deuses em serem adorados.

De uma forma geral, o episódio traz bons aperitivos para os fãs do livro que há anos aguardavam uma transposição para cinema ou televisão. A combinação de bons atores, fotografia belíssima, roteiro ágil e respeito com o original ajuda a criar expectativas de que teremos uma boa adaptação. Para não leitores, ele funciona como uma boa introdução para o universo da história, ainda que provavelmente possa causar uma sensação de perplexidade.

E essa perplexidade não é ruim. Ela está presente também no cérebro de quem fez a primeira leitura do romance de Gaiman. Mais que isso, o espanto coloca o espectador na pele de um protagonista que também precisa juntar as peças para desvendar o que está ocorrendo em sua volta e, ao mesmo tempo e cria uma ansiedade para descobrir o desenrolar da história.

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