Review de ‘Come to Jesus’, 8° episódio de ‘American Gods’

A conversão de um povo a uma religião envolve processos de sincretismo, nos quais ritos antigos são assimilados a costumes novos e ganham diferentes significados. Essa fusão pode ser um método de domínio cultural. A cultura de uma população dominante absorve elementos de uma cultura a ser dominada e a consome. Seguidores da fé antiga são submetidos à crença nova com maior docilidade quando os rituais apresentados a eles trazem uma familiaridade com suas tradições.

Essa incorporação de conceitos do paganismo às próprias festas era comum durante a propagação do cristianismo pela Europa. O monge inglês Beda relata em tratado escrito no século 8 como as festividades celebradas em honra à deusa germânica da fertilidade Ēostre ou Ostara foram substituídas por tradições cristãs, mais precisamente pelas comemorações da Páscoa. Esses escritos geraram a suposição de que quando crianças cristãs brincam com coelhos e ovos pascais, na verdade, elas homenageariam a divindade pagã. A própria palavra inglesa para a Páscoa (Easter) deriva do nome da deidade antiga.

Quando você paga tributo indireto a um deus em que não acredita conscientemente, ele recolhe, pelo menos, alguns trocados? O oitavo e último episódio da primeira temporada de “American Gods”, “Come to Jesus” (“Venha para Jesus”) mostra que sim – ainda que a entidade receba só um trocado mesmo – ao introduzir Shadow (Ricky Whittle) e o espectador à deusa Ostara (Kristin Chenoweth, numa interpretação deliciosa de se assistir). Um episódio é o suficiente para dar em quem assiste a vontade de venerar a deusa da fertilidade mostrada no seriado. Shadow mesmo fica encantado com ela, sorrindo como um garotinho diante de uma adulta por quem tem uma quedinha. As expressões faciais de Kristin e Ricky tornam o primeiro encontro dos dois personagens, bastante fiel às passagens do livro, adorável.

CONVERSÕES
Depois de matar um Deus Antigo ao perceber que antigos aliados podem virar a casaca na guerra contra os Novos Deuses, Wednesday (Ian McShane) se convence de que precisa recrutar uma divindade poderosa para fortalecer o seu lado no conflito. Ostara se torna seu alvo. Ela tenta se convencer que passa muito bem, obrigada. Diplomática, a deusa se alia a todas as interpretações possíveis de Jesus para ter uma relação boa com o cristianismo e se revigorar com o paganismo infiltrado nas comemorações da Páscoa. No fundo, Ostara sabe que ninguém reza diretamente para ela e sim faz orações para (as várias versões de) Cristo, mas ela tenta sobreviver esganando esse sentimento com modos alegres e aspecto florido.

Mas é a essa frustração oculta que Wednesday apela para convertê-la a seu lado da guerra. Ele promete a ela adoração como resultado desse apoio. Wednesday tenta matar vários coelhos com um golpe (ou atropelamento) só. Convencer Ostara a usar o poder dela para equilibrar o conflito é ganhar uma queda de braço com os Novos Deuses, também interessados em usá-la. Atrair a deusa é também uma forma de dar demonstrações de poder a um Shadow ainda hesitante entre o ceticismo e a aceitação na realidade por trás das situações absurdas que vivência. Fazer Shadow ver deuses em plena ação é um meio de convertê-lo também às crenças dos Deuses Antigos.

O jogo de sedução bélica de Wednesday culmina em uma cena espetacular que envolve a revelação a Shadow de que ele é Odin e a exibição da capacidade de Ostara. Apesar de todas as grandes mudanças da adaptação no oitavo episódio, as falas do deus nórdico são praticamente retiradas do livro, embora sejam apresentadas mais cedo do que no material original. É só ver o trecho do romance: “Eu me chamo Feliz-com-a-Guerra, Sem-Coração, Agressor e Terceiro. Eu sou o De-Um-Olho-Só. Me chamam de Superior e de Adivinho-de-Verdade. Eu sou Grimnir, e eu sou o Encapuzado. Eu sou o Pai de Todos e sou Gondiir Que-Leva-a-Varinha. Eu tenho tantos nomes quanto os ventos, tantas denominações quanto maneiras de morrer. Meus corvos são Huginn e Muninn, Pensamento e Memória; meus lobos são Freki e Geri; meu cavalo é a forca.” Para o apaixonado pela ficção fantástica (como o público alvo de “Deuses Americanos” é), a sequência é um primor.

Fortalecida por sacrifícios de capangas dos deuses Novos oferecidos a ela por Odin, Ostara assume todo o próprio potencial, arrancando a fertilidade da terra para que os mortais voltem a idolatrá-la, pedindo uma melhor colheita. A cena é visualmente belíssima e tem ares de liberação. É nela que a finale atinge seu ápice e Shadow finalmente reconhece que acredita.

Se pensarmos no conceito de monomito, segundo o qual os heróis das narrativas mitológicas e fictícias passam sempre por uma jornada parecida, vimos Shadow passar pelo estágio do mundo comum, do chamado para a aventura, pela reticência do herói, pelo encontro com o mentor/com o sobrenatural, pelo cruzamento do primeiro limiar, pelo enfrentamento de testes e assim concluiu o processo de partida. Nessa fase ele já aceitou o universo ao qual foi introduzido e o espectador também.

DOMINAÇÃO
O episódio finaliza um processo iniciado no primeiro episódio de introdução do espectador a um estranho universo onde a crença cria deuses e essas divindades disputam a atenção da humanidade. Pouco a pouco esse conceito foi desenvolvido, enquanto personagens surgiam e eram aprofundados. Se de um lado, a trama entretém, ela também provoca reflexões até a finale.

Com ela, é possível questionar a natureza da fé, a construção de um povo por meio da absorção de outras culturas e o que essa assimilação cultural significa para as culturas primitivas. As civilizações se apoiam nela, e atualmente a sociedade globalizada continuar englobar tradições étnicas para transformá-las em produtos, sem pensar no esvaziamento que esses atos geram às culturas originais. A mídia faz isso, a moda faz isso, a indústria faz isso, às vezes sem respeito algum (e os Novos Deuses são uma demonstração de como isso acontece no contexto da globalização).

A série mostra um simpático Jesus de Nazaré (Jeremy Davies), ao lado de suas variações, se sentir incomodado com a apropriação da Páscoa, mas, ainda assim, a fé dele continua a se alimentar das incorporações feitas em nome dele no passado.

Além de tratar do sincretismo religioso diretamente, a série apela para essa abordagem e para outras cenas para mostrar as tentativas de submissão feminina ao longo da história. Nas entrelinhas, com a substituição das festas de Ostara pela Páscoa, o cristianismo (uma religião patriarcal) domou uma deusa da fertilidade, com todos os seus significados de liberação feminina. O próprio Wednesday tenta dominá-la com manipulações, mentiras e com pouco ou nenhum respeito à devoção a Ostara. A forma como ele mata os coelhos da deusa na estrada sinaliza a falta de reverência a ela.

ANULAÇÃO
A questão da anulação do poder da mulher ele é trabalhada mais diretamente com a subtrama de Bilquis (Yetide Badaki) e é evidenciada na narração feita por Nancy (Orlando Jones). No passado, a deusa que é inspirada em Makeda, na rainha de Sabá, era adorada por sua sexualidade. Reis se sentiam ameaçados por seu poder e tentavam subjugá-la. A fé pagã a ela foi finalmente dominada quando o fundamentalismo islâmico ganhou força nas áreas onde Bilquis antes dominou.

Quando uma adoradora de Bilquis busca exílio nos Estados Unidos para fugir de um regime radical, ela a leva para a América. Porém, esse país também não é um bom terreno para a liberdade sexual feminina, e Bilquis se enfraquece quando sua adoradora adoece em meio ao surto de HIV (utilizado como simbolismo e também como uma ferramenta de contextualização histórica).

Já definhando, Bilquis se torna uma andarilha quando sofre o último golpe: ela vê adeptos ao grupo radical do Estado Islâmico destruírem seu templo. A série utiliza para tecer essa narrativa a prática agressiva que os radicais sectários têm em demolir monumentos históricos como forma de aniquilamento cultural. Vale lembrar que na nossa realidade o mesmo grupo toma atitude misóginas, chegando ao extremo de submeter mulheres e meninas à escravidão sexual. Fraca, Bilquis aceita a oferta de Technical Boy (Bruce Langley) de se fortalecer por meio de um aplicativo de celular. A ajuda dele é uma forma de dominação, já que a deixa em dívida com ele.

A um olhar superficial, Bilquis é mais um deus com pouca preocupação com os mortais, que os enxerga como sacrifícios em potencial. Ao mesmo tempo, sua história é trágica. A tragédia está na trama, está na lembrança de como culturas pagãs foram caladas pelo radicalismo religioso ao longo da história, está no simbolismo de como as mulheres ativas sexualmente sofrem agressões.

O prazer feminino foi e continua a ser mau visto. Sua anulação se manifesta na forma de rotulações ofensivas quando a mulher é considerada livre demais, a morte em crimes passionais quando ela resolve terminar um relacionamento, a violações quando ela é afirmativa demais da própria sexualidade, a culpabilização da vítima quando ela ousa ser sensual (com uma roupa que esconde e cria mistérios, ou existe partes do corpo, com batons de cores fortes, com sorrisos, com danças, com a escolha de passar por tal caminho), a silenciamento quando elas se manifestam por meio de movimentos sociais. Para a mentalidade machista, a sexualidade feminina e a própria mulher não podem existir como algo independente, elas devem estar submetidas aos interesses masculinos.

Em algumas partes do mundo, o prazer feminino é tão demonizado que ainda é recorrente a mutilação genital feminina. A Etiópia e o Iêmen, locais associados às lendas da Rainha de Sabá na antiguidade, ainda são alguns dos muitos países africanos onde meninas têm passam por procedimentos que vão da retirada clitóris ao corte dos grandes lábios e ao fechamento parcial do orifício genital. Quando a realidade ainda é trágica, é admirável que um seriado, um produto da cultura de massa, ouse a tocar em temáticas como o racismo, a xenofobia e a misoginia e ser crítico, como “American Gods” o faz.

 

INSURGÊNCIA
A trama de Laura (Emily Browning) se encaixa no contexto da anulação feminina. Por interesses pessoais, Wednesday tenta de todas as formas calá-la e afastá-la de Shadow. Ela descobre que não pode ser revivida por Ostara porque a deusa não quer desfazer o ato de outro deus: Odin é quem ordenou que Laura fosse morta.

A esposa de Shadow está longe de ser uma santa, ela já o magoou e pode ser egoísta. A construção da personagem é uma confrontação à dicotomia sexista de que mulheres são necessariamente santas ou “vadias”: são humanas que como todo mundo erram e acertam. Acima de tudo, Laura é a pessoa ou entidade com as melhores intenções para Shadow, por isso é uma boa escolha terminar a trama central do episódio com ela interrompendo o discurso de Wednesday, pronta para desmascará-lo.

De todas as figuras femininas anuladas, é Laura – antes uma mortal, agora uma morta-viva em decomposição, a personagem rejeitada por uma grande parte dos fãs – a que ousa a promover a maior insurgência contra essa anulação. Ela é o maior exemplo da expansão de personagens femininas promovida pelo seriado. O espectador pode não gostar de Laura, mas ele não pode negar que ela é uma personagem forte, complexa, que foge aos estereótipos do que é uma mocinha e que isso enriquece a trama.

CONCLUSÃO
Por oito episódios, “American Gods” ofereceu um passeio ampliado pelo universo criado por Neil Gaiman. Se no início as cenas foram perfeitamente fiéis ao livro, o episódio termina com grandes desvios da trama original – o maior deles a forma como os mortais serão afetados pela guerra dos Deuses, com a seca promovida por Ostara. Como eu disse antes, a temporada serviu como introdução a um universo tão diferente e tão semelhante à nossa realidade, ganhando pouco a pouco um ritmo mais intenso. Pensando no seriado como uma viagem em meio a um cenário fantástico, passar por ele lentamente, visitando localizações e pessoas, é a melhor forma de aproveitá-lo. Quando chega ao ponto da finale, o espectador já assimilou o conceito de como os deuses surgem, como enfraquecem, como se fortalecem, como as divindades que representam a tradição estão em guerra com as entidades que representam as obsessões atuais dos mortais, como o protagonista e sua esposa foram envolvidos nesse conflito, quem são cada uma das principais deidades e ele já tem sede de mais informações.

Ainda que a trama da adaptação siga às vezes o caminho de desvios e das expansões, o próprio livro traz uma narrativa mais compassada do que acelerada e a série é fiel à essência de como a história é contada.

O seriado deixou evidente que tem pouca intenção de prender espectadores mais impacientes, acostumados com atrações televisivas cheias de ação. A própria finale mais termina a introdução do que é um episódio explosivo, apesar do êxtase oferecido pela cena da revelação de Odin e dos poderes de Ostara. O próprio protagonista atuou mais como uma janela para a perspectiva do telespectador do que como um personagem ativo e deixou uma promessa de aprofundamento para a próxima temporada.

Entretanto, os produtores Bryan Fuller e Michael Green têm sim pretensões. O seriado apoia nos diálogos, na fotografia exuberante, no comentário social e no desenvolvimento de personagens para criar um espetáculo para quem tem interesse em ver uma história e uma mitologia se desenrolarem cheias de detalhes, para quem não tem pressa. Se as próximas temporadas cumprirem com o que foi prometido pela qualidade da primeira, teremos um belo seriado.

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  • Caio Fmz

    Boa Rafaela!! Excelente série e texto…

  • Toltecas Voadores

    Muito bom, analise perfeita!

  • Skalako

    Me pergunto qual seria a reação de Jesus aos planos ultra maquiavélicos do Wednesdey, já que é um deus poderosíssimo a julgar pelo incomensurável número de devotos, de moderados a fanáticos. Ao contrário de alguns fans de American Gods, eu gosto da Laura, acho-a uma personagem de peso, e levo em conta que o seu criador é um dos melhores contadores de histórias do universo literário-fantástico, o Neil Gaiman, pai entre outros seres, do Moldador e todo o numeroso séquito de personagens de Sandman. Quem eu não aprecio muito,até pela sua atitude serial, é Belquis, a deusa cuja obscura vagina engole a todos, homens e mulheres. Enfim, gostei muito dessa finale. Se o site não fosse exclusivo para American Gods, seria interessante ver a autora da review, escrever sobre Preacher, cuja nova temporada vem aí, já que é um universo que guarda algumas semelhanças com o de A.G. Bom, creio que estaremos juntos de novo na review da próxima temporada.

    • ViNi MiCoRRizA

      Levando em consideração a filosofia de vida do(s) Jesus(es), mesmo sendo extremamente poderoso, acho que ele não tomaria nenhum partido, ele tentaria pregar a paz entre os dois lados e convencê-los de que a guerra não é o caminho.

      • Vinicius de Oliveira

        Podemos dizer q esse poder esta segmentado nas diversas filiais de jesus… hehehe

  • Gustavo Leite

    Ótima análise!
    Jesus não toma partido até mesmo pelo que Odin havia dito: “Ele não é um Deus, é filho de um deles”, ou seja, deixem as grandes brigas para os adultos hahaha

  • Clavatown

    Incrível review! A ansiedade por cada capítulo da série é tão intensa quanto a espera por estas estas análises. Parabéns!

  • rohan

    Gostei quando a Easter falou sobre o Jesus com o bebê dinossauro haha https://uploads.disquscdn.com/images/7c15e871a30d242a676c6dbdb0a1f3ce94c36b7712138c026b603f0f25f8d2e4.jpg

  • Ka

    Alguém sabe qual personagem a Media representou nesse episódio? Não reconheci.

    • Judy Garland (Easter Parade).

      • Ka

        Thanks, man! 😉