Review de ‘Git Gone’, 4° episódio de “American Gods”

Poucas estórias épicas dispensam um acessório: a dama, o interesse romântico que motiva o herói em sua trajetória ou, pelo menos, funciona como compasso moral para ele. Basta relembrar as narrativas do estilo criadas desde a antiguidade. Temos Penélopes que mantêm a fidelidade por décadas na espera de seus Odisseus. Temos virginais donzelas de romances de cavalaria prontas para serem salvas por figuras cobertas por armaduras. Temos intocáveis Beatrizes que guiam seus Dantes pelo Paraíso. Na literatura mais moderna, temos belas Arwens capazes de renunciar sua imortalidade por seus Aragorns. Elas são sempre mulheres idealizadas – a aparência, o altruísmo e a paciência delas são excepcionais e as tornam uma compensação para guerreiros por todas as dificuldades que enfrentam. Até mesmo as Guineveres e Isoldas, que ousam violar as sagradas leis do matrimônio, fazem isso por amor a algum herói e por isso são perdoáveis.

Comparada a esse leque milenar de mulheres romantizadas, Laura Moon é um soco no estômago. A personagem trai o marido que a ama, para começar. Ela morre no início da história com o pau do melhor amigo do protagonista na boca. Apesar de ter o rosto delicado de uma Emily Browning, Laura não é exatamente o que se pode ser chamada de graciosa, principalmente, depois de ser desmembrada e evacuar fluídos de embalsamento por todos os orifícios.

Ao dar foco à personagem, o quarto episódio de “American Gods” mostra que ela não só contraria qualquer expectativa que o público poderia nutrir sobre o papel da esposa do herói na história, Laura é, mais que isso, semelhante a um humano de carne e osso (ainda que no universo do seriado, isso signifique carne e osso em decomposição). Mais do que qualquer episódio anterior, “Git Gone”(Desapareça) é quase um estudo de personagem.

IDENTIFICAÇÃO
Como muitos dos espectadores, Laura sobrevive às custas de um trabalho pouco satisfatório, no qual ela é essencialmente substituível. Ela é croupier em um cassino onde nem precisa mais embaralhar cartas, graças à tecnologia. Sabe aquele emprego ao qual você se candidata como algo temporário mas no qual permanece por anos e anos sem trazer qualquer satisfação profissional? Sabe aquela vida em que a semana se resume a trabalho, chegar em casa, comer alguma porcaria e dormir? Os dias de Laura são tão repetitivos e vazios que o tédio chega a fazê-la cogitar se suicidar da maneira mais prosaica o possível: com um inseticida. Começou a se identificar? Qual o sabor de se identificar com uma personagem desagradável?

Laura conhece Shadow (Ricky Whittle). Apesar de ele ser um ladrão que tenta a enganar em seu trabalho, ela aceita o levar para casa e o relacionamento que poderia ser casual, evolui. Ele a ama, o que é suficiente para convencê-lo a deixar de lado a desonestidade e a ser feliz. Laura encontrou o amor, o que seria a razão de existir para qualquer heroína de histórica épica, mas para ela não é. Gostar de Shadow é como gostar de um bichinho de estimação. Apesar dele, a vida continua repetitiva e medíocre. Laura propõe que Shadow tente roubar o cassino e ele vai preso. Ela promete esperá-lo, mas é incapaz de aturar o tédio e o trai.

Em resumo, Laura não é uma boa pessoa, aliás, como a maioria dos personagens de “American Gods”. Ela sequer é amável, ao contrário do que o público espera que personagens femininos sejam. A questão é que nem todos estamos acostumados com interesses românticos que não são boas pessoas. Elas não existem para despertar o melhor do herói? Que tipo de heroína faz o protagonista sofrer? Nós já aprendemos a assistir séries com antiheróis e os aceitamos com todas suas imperfeições. Don Draper de “Mad Men” trai a esposa compulsivamente e sabe ser arrogantes com coadjuvantes em alguns momentos, mas ele continua a ser fascinante. Walter White de “Breaking Bad” se envolve com o tráfico e se torna violento, mas nós ainda nos amamos. Aliás, nós apreciamos antiheróis justamente por eles terem os defeitos que os tornem mais complexos.

No entanto, será que nós estamos preparados para uma mulher/interesse-romântico-do-protagonista que não seja perfeita? Certamente, alguns de nós, não. As damas das estórias épicas são idealizadas justamente porque elas existem para confortar o leitor/espectador que se projeta no lugar do herói romântico. O protagonista é o homem que você queria ser, a esposa dele é a mulher que você queria ter.

Enquanto é viva, Laura é desconfortável para quem se identifica com Shadow, ainda mais para aquela parte do público que acredita que mulheres devem ter como alvo patamares idealizados, sendo belas, fieis e devotadas à felicidade de seu homem. Contudo, o desconforto é bem-vindo para parte dos espectados. Afinal, há outros espectadores cansados desse estereótipo de personagens femininas perfeitas ou superficiais, pessoas com a necessidade da humanização dos coadjuvantes para se envolver com a história.

COMPREENSÃO
As nossas narrativas épicas atuais precisam dessas damas idealizadas? O grande mérito de “Git Gone” é exatamente provar que não, as histórias se enriquecem muito mais com personagens tridimensionais, o que inclui o interesse romântico do herói. As cenas em que Laura está viva a mostra como um espelho. Ela é humana como nós. Sua vida é ordinária como a nossa. Ela tem o egoísmo e os defeitos que nós temos. Ao mesmo tempo, ela é bem menos vazia do que personagens femininas que existem apenas como um acessório, para serem salvas ou simplesmente como uma lembrança de que o herói tem relacionamentos com uma mulher.

A interpretação de Emily Browning colabora para essa compreensão de Laura como um ser complexo. Sua expressão evidencia o quanto a insatisfação é incômoda para a personagem. Ela continua convincente quando Laura deixa de apenas contrariar o papel de interesse romântico perfeito para se tornar uma variação infernal desse clichê.

Ao voltar da morte, Laura finalmente passa a enxergar Shadow como o centro de sua gravidade. Ainda assim, essa mudança não foi feita para agradar quem espera personagens femininos que giram em torno do protagonista. A cinegrafia da cena em que Laura escala a própria sepultura tem referência a um universo vasto do terror que inclui desde filmes B de zumbi até “Carrie, A Estranha”. Ela existe para ele não como a esposa ideal e sim como uma morta-viva que o persegue com mais força que a própria decomposição dela atrai moscas. (O que não é uma total desvantagem para Shadow, já que em vez de agir como uma donzela em apuros, Laura é quem o salva, da forma mais violenta e macabra possível).

RESPOSTA
“Git Gone” realiza aquele pequeno desvio ao passado que “American Gods” precisava nesse momento. O episódio anterior terminou com uma grande interrogação: como Laura voltou? Este trouxe a resposta para a pergunta e complementou a trama em outros pontos, mostrando a relação de Shadow com ela, o motivo de ele ter sido preso e quem o salvou do enforcamento. A volta de Laura é um sinal de que lidar com o sobrenatural tem suas consequências. Moedas mágicas geram efeitos e por isso não podem ser descartadas aleatoriamente. Nenhuma escolha fica sem resposta e é com essa noção que Shadow passará a conviver nos próximos episódios, ou ao menos, deveria.

A trama de “Git Gone” é uma demonstração para os espectadores mais impacientes de que eles serão recompensados com explicações para suas dúvidas, se souberem esperar. Já aos leitores de “Deuses Americanos”, o capítulo dá um certo conforto de que as expansões da participação de alguns personagens pode ser sim um acréscimo positivo da adaptação. Com o quarto episódio, o seriado ganhou pontos no que diz respeito a ritmo e continuidade. Depois dessa retomada de fôlego, a história está pronta para seguir de onde parou.

O episódio serviu também para aprofundar a temática do pós-vida. No sistema de crer e concretizar de “American Gods”, o além do fiel é aquilo em que ele acredita e funciona como uma retribuição dos seus atos. Aqui, se você não espera nada após a morte, sua crença é confortada com a escuridão. A questão é: alguma das duas crenças trazem paz?

P. S.: Audrey Burton, quem diria se tornou mais uma vez um aspecto positivo do seriado. No livro, a esposa de Robbie é simplesmente intragável. A boa interpretação de Betty Gilpin e o aumento da participação da personagem trouxeram um pouco de leveza e humor para um episódio denso e a tornaram mais humana.

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  • Samuel Diego

    Incrível texto. É interessante observar novas camadas em personagens femininas, quebrando esteriótipos e trazendo uma nova noção de sociedade aos leitores. Laura é de fato algo que será altamente importante em toda a trama (acredito), acho que até mesmo para despertar novas ideias em nós, espectadores. Há Lauras em todos os lugares, acho que precisamos apenas entender os seus pontos de vistas e suas histórias.
    De que adianta vangloriar um homem pelos seus erros que levam à acertos (antiherói) e ignorar uma mulher que percorre o mesmo caminho para entrar em ascensão?
    Adorei mesmo o texto. Estarei esperando as novas reviews!

  • Diego Miguel

    Gostaria que focassem um pouco mas na traição, sua falta de caráter e bem grande, é como ela e fria precisou morrer pra saber que de verdade o Shadow gosta dela?
    Vc’s sitaram Walter White só que ele nunca traiu a esposa, o que foi que aconteceu de verdade lá e que ele começou a gostar do que fazia e fazia tão bem feito que era único e alem de único era o melhor no que fazia!
    O Texto é excelente eu já sei tds os spoilers possíveis e como a Laura e importante na trama!
    Só que eu gostaria que o Shadow a tratasse mal ou pelo menos não si importasse mas com ela, pois msm estando em um Mundo Magico e sobrenatural uma traição e uma traição e o preço disso tem que ser pago, agora que ela voltou a ”vida” não pode simplesmente se redimir assim.

    • Jon Heisenberg

      Eles também citaram Don Draper, que traiu pra caralho a mulher dele e todo mundo amava ele e no final se deu bem, o que ela fez foi errado, mas não dá pra crucificar até o final por isso né, vamos evoluir junto com a personagem

      • Diego Miguel

        Como assim?
        Ela morreu no ato de traição, ela não pagou por isso e ainda voltou pra atormentar o cara? que isso e a msm coisa de Hitler voltar a vida e pedir desculpa por tds os seus erros….
        Ela tem que pagar e pronto não tem isso de evoluir junto com o personagem….

    • Luiz Fernando

      Pq você releva o fato do Walter ter se tornado um criminoso, assassino e mentiroso? Só pq ele ”gostava” e fazia bem? E confesso que estou assustado com essa comparação nonsense entre Hitler e Laura, o seu conceito sobre traição é bem bruto, mas não é por isso que as outras pessoas, os diretores e roteiristas da series tenham que achar o mesmo. Aconselho se des-tabulizar um pouco sobre a traição, principalmente quando se trata de uma figura feminina.

      • Diego Miguel

        kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
        Blz!

  • müller

    adorei o ep, mas gostaria de uma explicação mais entendível de prq ela ter voltado a vida. Ela voltou como punição? Foi alguma divindade que trouxe ela de volta, tirou ela das mãos do Anúbis?

    • Giovane Ribeiro

      acho que foi por causa da moeda da sorte que ele jogou no tumulo dela, tanto que o outro que trabalha para o Wednesday foi ate o caixão dela e viu que a moeda havia descido ate o caixao e queimado ate a parte de cima do caixao, e porem nao encontrou a moeda…deve ter algo haver com isso

      • müller

        aaaaaah sim, esqueci disso, essa parte da moeda. Nao me toquei disso tbm, a hora que ele abre o caixão e vê que tem o furo, faze sentido! Valeu!

        • Rodrigo Oliveira

          Acho que tem a ver com o fato dela trampar em cassino e ter aquela deusa lá que apareceu em forma felina junto anúbis, daí junto com o fato da moeda dar “sorte”.

    • Diego Miguel

      A Moeda do Leprechaun é Magica se vc reparar nela parece muito com as moedas astecas da maldição do Perola Negra dos Piratas do Caribe e quando o Leprechaun deu ela pro Shadow td a ”sorte” dele desapareceu e por isso ele foi atrás do Shadow pra pegar ela de volta….

      • müller

        aaah nao me lembrei disso! No caso a moeda deu “sorte” pra ela e ela voltou a viver?

        • Diego Miguel

          Pode ser que sim pode ser que não, pois aqui ainda será explicado eu ”acho” qual é o poder ou maldição da moeda…
          Mas tem muita coisa pra rolar e se vc for pesquisar vc acha muitos spoilers por ai então cuidado rs

  • Skalako

    Mais um ótimo e intrigante episódio, acompanhado por uma crítica irrepreensível.

  • Ka

    O episódio foi legal, mas poderiam ter resumido muito ali. Senti aquele medinho de estarem enrolando. Se começarem a deixar a historia principal de lado e entrarem episódios inteiros de tramas paralelas, vai ficar chato.

  • Skalako

    Sexualmente falando, o ato em si entre Shadow e Laura, é curioso, pois ele quer e gosta de fazer amor com a mulher que evidentemente ama, mas ela, quer apenas que ele a foda, que a pegue forte e tal. A cara que ela faz quando estão num basicão é no mínimo de tédio.

    • Ka

      Tu entendeu errado, cara. O episódio deixa claro como ela se entedia com a rotina. O trabalho, Shadow, o gato (lembra que quando o gato morre ela diz que nem gostava dele?). A cena é importante pra mostrar que a apatia dela se estendia a tudo que caia na rotina. Ela não quer que ele “a foda com força”, ela quer novidade. Queria roubar o cassino. Depois quis o vizinho. Enfim, não tem a ver com como ela gostava de fazer sexo. O prazer da moça é o perigo.