Review de ‘Head Full of Snow’, 3° episódio de “American Gods”

Crer é poder. Essa mesma frase é a espinha dorsal de tradições religiosas, superstições, livros de automotivação e até teorias científicas – ou pseudocientíficas, chame como quiser. Acreditar na própria capacidade é uma catapulta para as tentativas, enquanto a insegurança paralisa o inseguro, dizem gurus do mundo moderno. Quem tem fé consegue atenuar sintomas de doenças, dizem outros que creem e eles argumentam que a própria OMS (Organização Mundial da Saúde) reconhece a espiritualidade como um fator que não deve ser ignorado. Esperar que algo nos aguarda após a morte dá forças para muitos de nós para atropelar o lado amargo da vida e seguir adiante.

Somos uma sociedade que confia – em um deus que irá nos salvar da merda a que nós mesmos nos sujeitamos, na ciência que oferece respostas racionais sobre o funcionamento do universo, em embalagens que informa valores nutritivos, na bula do medicamento que compramos em troca de cura, na notícia polêmica compartilhada em redes sociais pelo amigo por quem simpatizamos, em propagandas que prometem felicidade, no engenheiro que projetou um prédio que desafia a gravidade ou na estrutura do avião por meio do qual sobrevoamos o oceano.

Crer é poder. Essa frase é a espinhal dorsal também de “American Gods”, como o terceiro episódio “Head Full of Snow” (“Cabeça cheia de neve”) reitera a cada a cena. Crenças latentes aqui são capazes de invocar as entidades que nos guiarão no além, de levar a autodescobertas tão existenciais quanto sexuais e até de manipular o clima.

MORTE
Em quais tipos de pós-morte você acredita com mais força? O questionamento movimenta o prólogo deste episódio. Ao contrário dos anteriores, a abertura não mostra uma chegada de imigrantes à América. Na verdade, a cena inicial fala de uma partida, mas sem deixar de mostrar pessoas que compõem o corpo dos Estados Unidos: estrangeiros que fincam raízes, transportando consigo culturas e fés diferentes.

A Sra. Fadil do prólogo cresceu fiel ao islamismo, mas uma faísca de crença alimentada na infância por histórias de sua avó sobre a mitologia egípcia foi mais forte. Por isso, ela não é recebida pelos anjos Munkar e Nakir, que nos mitos dos muçulmanos são quem testa os mortos. A Sra. Fadil é guiada por Anubis (Chris Obi, envolvente, calmo e confortante, como gostaríamos que um ente da morte seja). Retratado nas pinturas tumulares com um cabeça de chacal, ele é o deus do Antigo Egito que conduz a alma dos mortos ao submundo. Na mitologia, ele também está ligado ao preparo do corpo e à mumificação, rituais importantes para a cultura egípcia.

A cena inicial desvia da trama central ao mesmo tempo em que a complementa. Ela oferece um vislumbre não só de Anubis, como também de Bastet, a deusa felina protetora dos gatos, das mulheres e da cura, associada aos poderes benéficos do Sol. Quem sabe quando eles vão cruzar o caminho de Shadow e Wednesday? A cena também traz a quem assiste um além envolto numa estética impressionante, com efeitos especiais bem trabalhados e boa escolha de cores e elementos. A passagem também introduz o espectador à importância da fé, uma questão que permeia o episódio.

ACREDITAR?
Acreditar ou não, eis a questão para Shadow (Ricky Whittle). Nos últimos dias, a sua vida deu uma brusca guinada se distanciando da normalidade. Porém, a normalidade foi o que ele sempre reconheceu. Após conhecer Laura (Emily Browning), Shadow se permitiu acreditar no amor e com essa crença ele acabou traído e viúvo. Estranhezas passaram a cercá-lo após sair da prisão, mas às vezes é mais fácil crer que estamos no meio de uma alucinação do que aceitar que realmente a televisão conversa com você ou que um leprechaun faz o ar brotar moedas.

“Você não acredita em nada, então você não tem nada”, Shadow escuta no terceiro episódio. A mesma pessoa também o diz que ele está no trajeto do nada para tudo, e, sim, isso envolve acreditar. No início do episódio, Shadow encontra a terceira irmã que vive na casa onde está hospedado, Zorya Polunochnaya (Erika Kaar). Responsável por vigiar o céu, ela representa a estrela da madrugada, por isso dorme durante o dia e fica ativa à noite. A personagem é inspirada em um mito eslávico sobre deusas da Aurora que vigiam o cão do apocalipse, acorrentado à estrela Polaris. Na lenda, são duas guardiãs, porém Neil Gaiman criou uma terceira e mais jovem delas.

O encontro de Shadow com Zorya Polunochnaya acontece sob as pinceladas de uma cinematografia noturna, etérea e perfeitamente retirada do livro. A situação tem um ar celestial o suficiente para ele (e nós) acreditar(mos) que se trata de um sonho. Contudo, a injeção de fé dessa interação faz com que o protagonista se torne menos passivo e tome um pouco de voz ativa, uma evolução satisfatória. Depois do “sonho”, ele usa astúcia para negociar novamente com Czernobog (Peter Stormare). Desta vez, Shadow é quem faz a proposta de um novo jogo e é ele quem ganha, convencendo o anfitrião a adiar a marretada contra seu crânio e a acompanhar Wednesday (Ian McShane) até Wisconsin.

NEVE

Após a vitória, seu contrante o designa a uma nova missão que o desagrada: Wednesday, como adora causar impacto, chama o próximo passo dos dois de “roubo a um banco”, mas o ato envolve mais um golpe do que um assalto. O auxílio que Shadow precisa prestar é praticamente observar e atender um telefonema. Apesar de parecer pouco, o apoio de uma segunda pessoa essencial para o truque funcionar, como a maior parte das táticas de Wednesday.

A dinâmica entre os dois, aliás, é um dos pontos altos do episódio. É uma relação se constrói lentamente. Quando se olha superficialmente, é uma ligação que produz bons alívios cômicos, como quando Shadow resmunga por Wednesday falar sobre marshmallows em vez de discutir algo mais sério e depois aceita em voz baixa que gosta de marshmallows. Os dois formam um par contrastante. Shadow quer se redimir com a lei. Wednesday pouco se importa com a lei dos homens, é amoral ou até imoral, porém de uma forma cativante como Ian McShane consegue fazer. Mais do que nos divertir e confrontar Shadow, ele também é capaz de conduzi-lo a uma transformação.

Como alguém que apoia as reivindicações dos deuses antigos, o personagem de Ian McShane necessita que as pessoas acreditem nele. É assim que seus golpes funcionam. E é isso que ele busca provocar no homem que contratou, mais do que uma simples ajuda nas enganações.

A missão requer um terceiro esforço de Shadow. Acreditar. Embora ele não perceba, é dono de um poder mental latente. Wednesday pede que ele mentalize neve e contrariando os sinais da atmosfera, Shadow invoca a neve, o que é uma desculpa para cenas com efeitos microscópicos da formação dos flocos. É a primeira vez que o protagonista da série se envolve ativamente com o sobrenatural, o que o leva a questionamentos maiores sobre acreditar no que está vendo ou não. Acreditar lhe dá um poder que ele ainda não consegue mensurar, mas Shadow é relutante à sua maneira e pensa que prefere morrer a acreditar que há ursos presos no céu ou que é capaz de fazer o impossível. A questão é, por quanto tempo ele continuará a resistir? A descrença de Shadow sofre o golpe mais forte até agora. Laura, sua esposa morta, surge à sua espera no quarto de hotel. O espanto do espectador é equivalente ao espanto de Shadow.

SORTE
Felizmente, “American Gods” continua a manter a estrutura cheia de narrativas paralelas à trama central, um esquema que reflete a forma como a história é relatada no livro. Uma delas é a das desventuras de Mad Sweeney, mais vinculada à história de Shadow que a outra. Não se trata um desvio incômodo, pelo contrário. É delicioso assistir Pablo Schreiber como Mad Sweeney, porque ele concretiza o personagem do livro. Para o leitor, é bom ver alguém saltar das páginas dos livros ou da nossa imaginação. Para o não leitor, o personagem é bem interpretado e entretém, de qualquer forma.

Entretanto, se para o espectador é um prazer ver o leprechaun rabugento e sarcástico, para Sweeney a vida deixou de ser prazerosa. Ele perdeu a sorte ao entregar a moeda errada para Shadow. Isso nos oferece uma cena violenta de trânsito capaz de provocar os mesmos medos de dirigir atrás de um caminhão com carga de canos que uma cena de “Premonição” (2000). E sim, estar sem sorte é o equivalente a se tornar parte de um filme de terror para um leprechaun. Afinal, quem vai acreditar numa entidade que dá azar? A subtrama de Mad Sweeney também serve para dar indícios do que aconteceu com Laura. Afinal. Shadow depositou a moeda da sorte no túmulo dela. O objeto atravessou terra, madeira e cetim do caixão. E, de repente, não há corpo no sepulcro.

AUTOACEITAÇÃO
A outra subtrama paralela é mais independente da trama central. Ficamos diante de mais um capítulo denominado “Em algum lugar na América”, mais uma passagem a mostrar a relação de imigrantes e entidades de sua cultura. A passagem em questão é retirada de um trecho do livro. Nela, acompanhamos Salim (Omid Abtahi). Ele é um vendedor, saído de Omã, que foi buscar uma vida melhor nos Estados Unidos. A realidade é menos agradável do que o futuro que Salim imaginava. Ali, ele é mais um estrangeiro, o que o torna sozinho, ignorado e descartado Até sua família o recepciona mal e o deixa infeliz.

É com esse estado de espírito que Salim encontra um taxista (Mousa Kraish) que fala seu idioma. Quem já viveu em outro país sabe como é reconfortante ouvir a própria língua. Mais do que apenas proporcionar essa familiaridade cultural, o motorista trata Salim como um ser humano, ao contrário das pessoas que ele encontrou na América. Esse contato cria uma ligação entre os dois que se fortalece quando o vendedor também resolve confortar o taxista. Um toque no ombro do outro leva a uma revelação. O motorista possui olhos de chamas, o que faz Salim se recordar do mito dos Jinn, povo lendário feito de fogo. Mais uma vez uma crença latente produzida por histórias da infância faz com que um mortal aceite a situação estranha que se apresenta a ele. Essa aceitação também gera efeitos positivos na entidade.

Para o Jinn, viver na América moderna também é desagradável. Ali ele encontra uma cultura que incorpora as outras, transformando-as em meros estereótipos, tratamento que o próprio livro “Deuses Americanos” critica nas entrelinhas. Na mitologia islâmica, os Jinn (também conhecidos como Ifrit) são uma das três criaturas sapientes criadas por deus, junto com os anjos e com os homens. Em sua essência, eles são poderosos e complexos. Na cultura de massa aceita pelos norte-americanos, os jinn são transformados em gênios submissos aos homens que existem para realizar seus desejos.

Enfraquecido com a descrença, o Jinn assume o papel de um outro estereótipo do imaginário norte-americano, o do taxista estrangeiro que povoa Nova Iorque e que, na realidade, trabalha sem parar e com pouco descanso. Isso muda. Diante de seu poder, Salim o venera, fortalecendo-o. Os dois se atraem e se permitem tocar um ao outro. Com esse contato, o vendedor também se descobre, toma poder da própria sexualidade em uma cena com cinematografia mágica, romântica e sensual.

Mais do que sexo, a narrativa de Salim e do Jinn fala sobre a capacidade de duas pessoas (ou uma pessoa e uma entidade, se você preferir) se confortarem por meio da intimidade e encontrarem a si mesmos ao mesmo tempo. O resultado da interação dos dois é que a crença de Salim faz com que o Jinn fique forte o bastante para abandonar uma vida obscura e abraçar sua existência como um deus antigo. O mortal também se transforma ao começar a acreditar em si mesmo. A ele é oferecida a possibilidade de outra vida, baseada na autoaceitação, conduzida por si mesmo. Como ganhou coragem, ele aceita o desafio.

“American Gods” continua a contar (de forma audiovisual e com um elenco de se glorificar ajoelhado) os capítulos de uma ótima história. Sua fotografia já a destaca entre outras produções televisivas. O outro poder da série é sua força política. A série promove a representatividade e, neste episódio, isso significa apresentar uma relação homossexual sensibilidade, erotismo, e acima de tudo, naturalidade.

Adaptações de livros, no passado, já disfarçaram ou minimizaram a homossexualidade de personagens para não ofender um possível público conservador. “American Gods” insiste em ousar a ser fiel ao material original, a apostar na maturidade de seu público e a ser inclusiva, sem soar panfletária. Como a obra de Neil Gaiman, a obra de Bryan Fuller usa fios de reflexões sociais para tecer uma boa narrativa, sem torná-la pesada.

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  • César Bastos

    adorei seu texto!

  • Diego Bezzi

    Acho que eu nunca fiquei tão feliz com uma adaptação.
    Ansiosíssimo pro próximo episódio!

  • Jonas Alencar

    American gods é uma obra muito bem adaptada, da gosto de ler o livro e da gosto de assistir também.

  • Young Wolf

    Excelente review para um excelente episódio.
    Essa adaptação está incrível , os desvios do livro são tão sutis e bem feitos que vem para somar e expandir o livro , e não para estragar ou ficar sem sentido. Hype tava enorme , e já é uma das minhas séries preferidas fácil.

  • Skalako

    Amei a review. Como é delicioso e satisfatório ler textos de pessoas que tem o talento para isso. A gente fica sempre torcendo para que o texto seja ainda mais longo e o prazer da leitura dure mais.Concordo com tudo o que ela escreveu, da primeira a última palavra. Parabéns.

  • Ka

    Parabéns pelo texto!

  • Ian Costa

    os personagens ficam cada vez melhores em casa ep