Review de ‘Lemon Scented You’, 5° episódio de “American Gods”

Ano de 1947 depois de Cristo. União Soviética e Estados Unidos avançam como potências rivais. Projetos tecnológicos, produção de armamentos, informações secretas de outros países, e o fantasma da espionagem estrangeira tornam o fortalecimento de um serviço de inteligência um assunto de segurança nacional. O presidente Harry S. Truman cria a CIA (Agência Central de Inteligência). Setenta anos depois, os norte-americanos sabem que a organização é peça-chave na busca (captura, ou execução) por líderes extremistas que ameaçaram seu país nas últimas décadas, como Osama Bin Laden. O trabalho de agentes secretos ajudam ainda a desmontar esquemas para possíveis atentados em território interno.

De um lado, o serviço de inteligência significa poderio e segurança contra de nações inimigas, uma benção em tempos em que as armas de destruição em massa e o terrorismo deixam a sociedade entre os estados de alerta e pânico. Do outro, o que o alcance de suas atividades significam para o habitante comum dos Estados Unidos? A Wikileaks denunciou que a CIA pode espionar qualquer um por meio de TVs, celulares e computadores conectados à internet. O que o serviço de inteligência sabe sobre o que ocorre na Terra? E fora dela? Teorias de conspiração defendem que outra importante organização norte-americana, o FBI (Departamento Federal de Investigação), desvenda muito mais do que releva sobre vida extraterrestre.

Todos esses aspectos construíram mitos sobre agentes secretos, fazendo com que eles sejam figuras marcantes para o imaginário dos norte-americanos da primeira metade do século 20 adiante. O quinto episódio de “American Gods”, intitulado “Lemon Scented You” (“Você com fragrância de limão”) é marcado por uma série de revelações, como o fato de que, no universo da série, os “homens de preto” têm status de divindades, fortalecidos por todos os mitos que os norte-americanos alimentam sobre eles. Na verdade, a força política que sustentam as crenças da população dos Estados Unidos em relação a esses agentes tornam a versão imaginária deles, Mr. World (Crispin Glover), o líder dos Novos Deuses. Enquanto o prólogo do capítulo, coroado com uma animação belíssima, destaca que as entidades se desfazem quando são esquecidas, o resto da trama do episódio reitera que a veneração fortalece qualquer divindade. Homens criam deuses à imagem e semelhança de suas fantasias.

REVELAÇÕES
Ao ser confrontado pela presença de Mr World, Shadow (Ricky Whittle) também é exposto a revelações sobre os estranhos acontecimentos que o rodeiam. Do mesmo modo que Wednesday (Ian McShane) recruta os Deuses Antigos, os Novos agem em cumplicidade entre si. Os dois lados estão em guerra, o que pode respingar em Shadow. Para ele, ainda não estão claras as intenções das duas partes e como elas podem afetá-lo.

Uma coisa se torna certa para o protagonista durante o quinto episódio: a linha que separava o sobrenatural do real foi definitivamente rompida. Quando personagens de televisão conversam com Shadow, a experiência é verdadeira e não uma alucinação. Esposas mortas que o visitam em quartos de hotel estão ali em carne e osso, como é possível comprovar atirando almofadas no rosto delas e beijando seus lábios frios.

O episódio “Lemon Scented You” retoma a cena da aparição de Laura (Emily Browning) para o marido. Como era de se esperar, o casal discute a traição da mulher e o motivo de ela ter voltado. Laura diz que a morte a fez perceber a extensão do amor que nutre pelo esposo. Ele se tornou seu “sol”, uma vez que a moeda com a qual ele a presenteou a ajudou a recuperar a energia vital.

Enquanto tenta encaixar peças do quebra-cabeça bizarro que a própria vida se tornou, Shadow se sente incapaz de perdoar Laura. A verdade é que ele mal tem tempo de digerir o fato de que a esposa infiel escapou do túmulo, a discussão de relacionamento dos dois é interrompida por Wednesday, que por sua vez é interrompido pela chegada da polícia.

O roubo de Wednesday ao banco é motivo da detenção. Ou melhor, uma das razões. O que chamou a atenção da polícia é o fato de que a corporação recebeu informações precisas do crime e dos criminosos, incluindo imagens capturadas secretamente com equipamentos como os utilizados pelo serviço de inteligência para vigiar terroristas perigosos. Os policiais ainda não imaginam que tudo foi arquitetado pelos Novos Deuses como uma forma de ter acesso a Wednesday e Shadow.

NOVOS DEUSES
Depois de aparições breves em episódios anteriores, os Novos Deuses retornam ao seriado com uma participação expandida. O Technical Boy (Bruce Langley), deus da tecnologia e do virtual, é infantil e arrogante. Não é de se surpreender, afinal, ele é o mais jovem até entre as deidades mais recentes. Se formos pensar na veneração da humanidade à Internet, a rede foi criada pelo governo dos Estados Unidos somente na década de 1960 – e disseminada entre o público geral lá pelos anos 1990.

A web é um local de compartilhamento de informações, produção e divulgação de entretenimento, geração de dados e também da proliferação do ódio. Quantos linchamentos digitais não presenciamos no nosso dia a dia? O comportamento de Technical Boy é coerente com esse ambiente de deslumbramento e agressividade, porém atrapalha os planos dos Novos Deuses.

Ele é repreendido por uma deusa ligeiramente mais antiga e mais sábia: Media (Gillian Anderson). Se em sua aparição anterior ela surgiu como Lucy, importante personagem da TV norte-americana, no quinto episódio, a divindade do entretenimento explora sua habilidade em mudar a própria aparência para se apresentar como grandes ídolos adaptados ao espectador. Em uma das cenas, Media encarna o cantor, compositor, ator e produtor musical, David Bowie (era inevitável, ele próprio foi uma personificação da mídia). Mais precisamente, ela aparece com o visual do artista no videoclipe a canção “Life on Mars”. Na outra passagem, ela surge como a atriz Marilyn Monroe no filme “O Pecado Mora Ao Lado” (1955), ícone não só do cinema, como da cultura pop em geral.

A caracterização e o roteiro são impressionantes nas duas versões de Media. Ela não só se parece com os ídolos, ela soa como eles. As falas da “Media-Bowie”, por exemplo, estão repletas de trechos de letras de hits escritos e gravados pelo cantor (A propósito, o tema rende um artigo à parte, que será publicado no site nos próximos dias).

Assim, a deusa se apoia em figuras que a fortalecem e que a aproximam de seu público. Quando está diante de Shadow, ela aposta na aparência de mulheres glamourosas da década de 1950, por exemplo. Media tem uma relação mais afável com seus fiéis do que Technical Boy. E também, mais antiga. Ela nasceu da dependência dos humanos em relação à comunicação em massa, a partir do começo do século 20. Media está presente nos lares de seus seguidores. Começou essa familiarização pelo rádio, depois teve a TV como portal até eles e é até visitada por seguidores no templo do entretenimento chamado cinema. Vale lembrar que o vínculo da mídia com o público não está limitado à diversão. O elo se baseia também na manipulação. O jornalismo, a música, o cinema, a propaganda e a televisão já foram usados para a assimilação de ideias políticas, como, por exemplo, justificar o apoio a um lado em guerras. Como manipular sem seduzir?

Media percebe mais facilmente do que Technical Boy que ao torturar Shadow, ele inflamou Wednesday e podem produzir o mesmo efeito em outros Deuses Antigos, em vez de enfraquecê-los. Ela sabe como ameaças mal calculadas geram histeria em massa e ações defensivas que fortalecem o inimigo. A deusa do entretenimento também está mais sensível a simbolismos do que deus da tecnologia. A violência de Technical Boy contra Shadow remete aos linchamentos praticados contra negros nos Estados Unidos – na internet, atos racistas se disseminam impunemente, mas quando são divulgados pela mídia, eles são fuzilados com críticas (pelo menos é o que tem acontecido nos últimos anos). Como o próprio Wednesday questiona, que impressão uma agressão com viés racial causaria em um deus de origem africana como Anansi (Orlando Jones), introduzido na série provocando negros escravizados contra seus algozes?

PROPOSTA
Os Novos Deuses elaboram meios para que a polícia prenda Wednesday e Shadow, com a intenção impressionar os dois. O ato envolve um pedido de desculpas por parte de Technical Boy a Shadow, uma proposta de Mr. World e Media a Wednesday e muita extravagância. A cena do encontro é uma explosão de efeitos especiais. Não podia ser diferente, os Novos Deuses são jovens, estão no auge da própria força e sentem a necessidade de exibi-la. Aliás, fazer espetáculos é um dos métodos de produzir fascinação empregados pela mídia e Mr. World precisa mostrar o alcance do próprio poder com a ajuda dela. Muitos mitos que envolvem os agentes secretos são fortalecidos pela indústria do entretenimento, na forma de filmes e seriados sobre espionagem e “homens de preto”.

É com essa pirotecnia que os Novos Deuses propõem o que chamam de “fusão” a Wednesday. Se ele aceitar a aliança, eles fariam com que os Estados Unidos enviassem um míssil para a Coreia do Norte batizado em sua homenagem. Seria um sacrifício ao deus com base da disseminação de uma população. Com a sequência da oferta, o seriado aproveita para escancarar a identidade de Wednesday. O nome do míssil seria “Odin”, como é chamado o principal deus do panteão nórdico, também conhecido como “Pai de Todos” e “Senhor da Guerra” (o que explica a tentativa de seduzi-lo com uma arma bélica).

Um parêntese… A revelação de quem é Wednesday acontece na série mais cedo do que no livro, e vamos combinar que os indícios foram vários desde o primeiro episódio: Wednesday (a palavra inglesa para quarta-feira) significa Dia de Odin, o personagem chegou a se mostrar animado ao dizer que sentia cheiro de guerra no ar e os corvos Hugin e Munin (que levam informações a Odin sobre o mundo) foram mostrados em diferentes cenas.

Contudo, tentar atrair Wednesday com uma arma de destruição em massa que carregue seu nome não é suficiente. Ele interpreta a oferta como uma condenação ao exílio. Mr. World mantém os modos respeitosos sem deixar de lado os ares sinistros (reforçados pela atuação perturbadora de Glover) e dá ao Deus Antigo um tempo para pensar. A fuga que ele permite a Shadow e Wednesday da delegacia é digna de um filme de terror.

MOEDA
O episódio também explora outros personagens apresentados anteriormente. Laura dá um outro salto em desenvolvimento (que inclui uma confirmação de que a volta do mundo dos mortos a deixou com uma superforça) e Mad Sweeney (Pablo Schreiber) continua a desnorteada busca por sua moeda da sorte. O confronto dos dois rende uma cena de alívio cômico que ressalta os modos ríspidos e desonestos de Laura e o sarcasmo, a falta de esperteza e o jeito caótico de Sweeney. Ela se nega devolver a moeda, ele espera recuperá-la quando o corpo da morta se decompor, o leprechaun tenta estupidamente atacá-la e acaba preso, dando continuidade à sua onda de azar.

Com a participação deles e a trama principal do capítulo, “Lemon Scented You” é o episódio que mais revelou fatos sobre a história e os principais personagens, ainda que sem fazer isso de modo “mastigado” demais. O roteiro segue cheio de cuidado com detalhes e a fotografia combinada com trilha sonora continuam a envolver os sentidos de quem assistir. Por isso, o espectador bombardeado de falas, sons e imagens, deve estar atento a cada frase, interação de personagens e aspectos audiovisuais. Tudo pode ter informações importantes para quem não leu o livro de Neil Gaiman ou servir de acréscimo para quem leu.

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  • Scalped.

    Episódio maravilhoso e esse Leprechaun tá muito bom!

  • Diego Miguel

    Show…
    O Episodio foi sensacional, não da pra descrever que não seja assim…
    Ai vc’s não falaram mas e bem bacana quando a Mídia fala sobre o caso Roswell que aquilo realmente aconteceu e como a População mundial entraria em Panico geral se soubesse a verdade, essa parte foi bem bacana!
    A serie esta fenomenal só resta mas 3 episódios (foram feitos somente 8 se não me engano? então seria 6, 7 é 8) é depois somente a 2° Temporada.

    • Sim, são 8 na 1ª temporada (originalmente seriam 10, mas decidiram cortar e dividir as cenas entre os 8 episódios).

      • Diego Miguel

        Sim ouvi sobre isso…
        A Qualidade esta impecável então 8 ou 10 vai continuar muito bem feita.

    • Rafaela Tavares

      Obrigada pelos seus comentários sempre gentis, Diego!
      Roswell também se encaixa na percepção sobre os “homens de preto” como o Mr. World, mas a Media fez uma referência ao pânico gerado por uma leitura do livro “Guerra dos Mundos” transmitida por rádio em 1938 como se fosse um noticiário jornalístico. Muitas pessoas que sintonizaram não ouviram o começo e acharam que fosse uma invasão alienígena real. A cena da Media Bowie vai ser analisada por nossa equipe em um artigo a parte que será publicado amanhã e irá falar um pouco mais disso.

      • Diego Miguel

        De nada, eu que agradeço vc’s fazem um serviço bom e com qualidade ao material original e nos nutri com Informações importantes sem se preocupar com X ou Y isso e importante!
        Certo entendi
        Foi sensacional, um episodio muito bom e cheio de Ester Eggs que não estão ali apenas pra agradar e sim pra preencher um roteiro e atuações belas!

  • Skalako

    Ótimo episódio(com uma abertura magnífica), iniacialmente fiquei na dúvida se o envolvimento da polícia não seria mais uma das manipulações Wednesday, em reação ao que os seus dois fofoqueiros emplumados foram lhe contar. Ansiosíssimo pelo próximo.

  • Fawks

    Essa série é um colírio para os olhos, não apenas por sair do parquinho e abordar um tema tão denso e interessante, como a forma escolhida para isso. O único problema é que eu pretendia ler o livro, agora não vou conseguir enquanto a série não acabar ;-;.

    Comentários a parte, que cena absurda de boa foi toda a interação do trio dos Novos Deuses com o Wednesday e o Shadow. As atuações tanto da Midia quanto do Mr.World foram ótimas, assim como as atitudes mais “galhofas” do Odin. O engraçado é que enquanto o Shadow ficou todo embasbacado por não entender ao certo que porra tava acontecendo, eu (e acho que muitos outros) fique embasbacado por ver uma cena louca com diálogos tão bem encaixados como aqueles, muitas das coisas ali tem aquele duplo sentido safado que nos faz pensar “e se tudo fosse real? Odin teria aceitado a proposta!”.

    Agora, sinceramente? Mad Sweeney é de longe o melhor alívio cômico que vi em muitos anos. A cena dele já puto virando pra Laura e mandando um “Give me my coin, CUNT!” E depois o gritinho do dedo sendo quebrado KKKKKKK, fazia um bom tempo que não ria tanto com uma série.

    PS: Como assim o Anansi anda nas roupas do Odin? :O confesso que por essa eu não esperava.

    • Humberto Luiz

      Hey cara, a questão é que isso É real (se é que me entende), e o Mr. Wednesday tem motivo mais que suficiente p n aceitar a proposta, como ainda revelarão, e creio q msm q não tivesse, simplesmente por ser um deus viking, preferiria a morte em batalha a se sujeitar ao “exílio” proposto. E a aranha n era Anansi usahasuhasuas olhando atentamente da pra comparar com a forma de aranha dele no segundo ep, sao bem diferentes, mas é uma conclusao logica q ela deva ser relacionada a ele de algum modo, talvez como uma pequena guarda costas para emergencias sahuhasuhas

  • Bruno Mais

    E aquela planta sinistra? A promo, também deixou com água na boca, afinal um Deus de guerra, precisa de um armeiro divino!

    • Ovo Maltino

      A planta se não me engano é o Mr. Wood.

      • Bruno Mais

        è sim, ficou claro !

  • calobo

    eu queria saber se Shadow é um semi-deus ou algo assim porque tem muito foco nele mesmo ele sendo o principal e tals mais tipo tem a parte da neve eu gosto de spoiler quem puder mim fala eu agradeço

    • Osias Jota

      Por que? Não pode ser simplemente um protagonista humano e pronto?