Review de ‘A Prayer for Mad Sweeney’, 7° episódio de ‘American Gods’

Que histórias entrelaçadas tecem a tapeçaria que retrata a identidade de uma nação? Mitos sobre a construção das Américas narram épicos sobre europeus encantados com a ideia de um Novo Mundo que se dispuseram a atravessar um oceano para tentar a sorte em uma terra mais fértil. Mas a realidade nem sempre foi tão romântica quanto as lendas sobre os pioneiros desbravadores. A prática de exílio penal também ajudou a formar camadas ancestrais das populações das colônias. Da década de 1610 até a Revolução Americana, em 1776, milhares de condenados foram transportados da Grã-Bretanha para o território que se tornaria os Estados Unidos. Lá eles enfrentaram uma vida de servidão até ganharem a liberdade, formar famílias que após muitas ramificações chegariam aos atuais cidadãos norte-americanos.

A narrativa “Chegada à América” do sétimo episódio, “A Prayer for Mad Sweeney” (“Uma Oração para Mad Sweeney”) acompanha esse aspecto da formação demográfica dos Estados Unidos, ao contar a história da jovem irlandesa Essie Macgowan (Emily Browning). De uma inocente criança devota às entidades do folclore de sua terra, ela se tornou uma criminosa condenada ao exílio duas vezes após ser conduzida à conduta de golpes e furtos – pela covardia de pessoas das classes mais elevadas, a princípio, por descobrir um dom, mais tarde.

ENCAIXE
Mais uma vez as temáticas do “conto paralelo” traz reflexos que a ligam à trama principal do capítulo. Contudo, a história de Essie não é limitada a um prólogo ou a uma breve sequência que funciona como um intervalo para a narrativa central. Pela primeira vez no seriado, ela ocupa uma grande fatia de cenas e está emaranhada à trama de Mad Sweeney (Pablo Schreiber) e Laura Moon (também Emily Browning).

A produção do seriado expande um trecho presente no livro e toma algumas liberdades para encaixá-lo melhor à origem dos personagens principais. No material original, a imigrante em questão é Essie Tregowan, nascida na Cornualha, e dedica suas oferendas a pixies, criaturas originadas da mitologia de sua terra natal. O desvio acaba por incrementar o desenvolvimento de Sweeney, sem prejudicar a história de Essie.

Episódios anteriores ressaltaram que mulheres e homens criam deuses à semelhança de suas culturas. A sequência formada por atos de crença, corporificação da deidade, e devoção por parte dos mortais culmina em fortalecimento do objeto da fé. A questão que permanecia é: os deuses são capazes de gratidão pelas oferendas que recebem? A história de “A Prayer for Mad Sweeney” responde que sim.

A dedicação de Essie e a pureza de sua crença dão um sentido à existência do leprechaun quando eles se encontram no século 18 – a série não deixa isso claro, mas vale lembrar que a Europa vivia um período que valorizava a racionalidade, época em que floresceu o Iluminismo. É de se imaginar que deuses e entidades folclóricas sofreram alguns golpes. Acreditar em fadas e duendes era um pensamento que começava a definhar em círculos fora ao da esfera mais humilde da sociedade. Sweeney fica tão marcado por essa mortal que séculos mais tarde a existência dela ainda reverbera em atos chaves praticados por ele.

A adaptação deixa claro também que Mad Sweeney é Suibhne rei lendário irlandês que, segundo a mitologia daquele país, enlouqueceu durante uma batalha após ser amaldiçoado por um santo. Na versão do seriado, ele fugiu como um pássaro de uma batalha ao perceber que morreria. A aliança do Leprechaun com Wednesday nasceu da necessidade que Sweeney sente em cumprir com o destino de morrer em batalha, já que a realização dos planos de Odin significam a concretização de uma guerra.

 

PARALELO
Essie funciona também como um paralelo à Laura. Apesar das caracterizações e sotaques diferentes, as duas são interpretadas pela mesma atriz. Os produtores podem até insinuar que as duas façam parte de ramos distantes da mesma árvore genealógica. O sobrenome de solteira de Laura é McCabe, o que indica uma ascendência irlandesa.

Ambas as personagens cometem atos amorais. As duas são beneficiadas em alguns momentos de sua vida pelos poderes de Sweeney – Essie como pagamento por sua devoção, Laura, por acidente e, mais tarde, por um sentimento de culpa do leprechaun. Tanto uma quanto a outra flertam com infrações, embora Essie tenha um talento maior pelo golpe.

Outras características de Essie funcionam também como antíteses a elementos que integram a personalidade de Laura. Essie é carismática e extrovertida, Laura não se incomoda em ser desagradável. A essência de Essie é a fé, Laura desenvolveu uma forte descrença. O primeiro passo para a queda de Essie foi sentir demais e se envolver com alguém errado por amor, o primeiro passo para a queda de Laura foi sentir demais e se envolver com alguém errado por falta de amor.

Sweeney repara mais nas semelhanças entre as duas e apesar de se prejudicar, quando tem a oportunidade de recuperar a moeda que lhe dá sorte (e dá vida a Laura), prefere devolvê-la ao corpo da morta, depois de uma crise de remorso.

O episódio também traz outro desvio importante à trama principal – ou talvez pudéssemos chamar de acréscimo. Cenas deixam claro que Sweeney está diretamente envolvido no acidente que causou a morte de Laura, a mando de Wednesday (Ian McShane). Ele tenta novamente influenciar uma segunda eliminação – o leprechaun joga moedas para fora do furgão de sorvetes conduzido por Laura para alguma entidade e logo um coelho surge na pista causando um novo acidente. A questão é, o que isso diz sobre as intenções de Wednesday?

ADAPTAÇÃO
Não sei qual a reação de outros fãs-leitores, mas as mudanças na adaptação até o momento não me incomodaram, mesmo a mais significativa que é a ligação de Odin na morte de Laura. Para mim, elas soam mais como uma novidade ou revelação do que uma distorção ao material original.

Elas também ajudam a aprofundar os três personagens melhor desenvolvidos no seriado até agora: Mad Sweeney (que acaba de ganhar camadas que fazem como que ele seja muito mais do que um leprechaun grosseiro e fanfarrão), Laura e Wednesday. Os três são os exemplos mais claros da ausência de maniqueísmo em “Deuses Americanos”. Embora a mitologia geralmente seja preenchida por heróis e monstros, demônios e santos, se a moralidade dos personagens do livro e do seriado fosse preenchida por tonalidades entre o preto e o branco, a sua coloração seria cinza.

“A Prayer for Mad Sweeney” prima por possibilitar um envolvimento do espectador com uma personagem não introduzida anteriormente e que não seria vista no futuro. É difícil não gostar de Essie, mesmo com os delitos que ela se torna capaz de cometer. Ela continua a ser inteligente, forte e persistente. Se para alguns norte-americanos pensar que a possibilidade de descender de ex-condenados possa ser motivo para vergonha, é pouco provável que alguém se sentiria mal por ter uma sobrevivente tão resistente e perspicaz como antepassado.

O duo Laura e Sweeney tem uma dinâmica tão interessante e capaz de entreter quanto a de Wednesday e Shadow (Ricky Whittle). Seus intérpretes também fazem um ótimo trabalho nas cenas do sétimo episódio – Pablo é magnético e consegue dar novos nuances aos personagens, Emily convence como duas personagens diferentes que causam efeitos um tanto distintos nos espectadores. As baladas retrô que embalam as cenas de Essie ajudam a criar uma atmosfera romântica e nostálgica para o episódio.

Outra dupla que enriquece o episódio são os deuses Ibis (Demore Barnes) e Jacquel (Chris Obi)– ou melhor, Tot e Anubis, sempre muito bons em cena. Em sua forma humana, as divindades egípcias são plácidos e meticulosos, como devem ser profissionais da escrita e do ramo funerário, ou deuses do conhecimento e da morte.

A um episódio antes da finale da temporada, “American Gods” demonstra que a história do livro será saboreada a passos lentos, aprofundando pouco a pouco personagens, fazendo comentários sociais sobre a atualidade, tecendo o panorama cultural que compõem a pluralidade da essência dos Estados Unidos. Talvez o ritmo não agrade a todas as audiências, principalmente não ao público acostumado com seriados frenéticos, mas se as próximas temporadas forem preenchidas por episódios com bons diálogos, fotografia cinematográfica, atuações competentes e expansões da participação de coadjuvantes como “A Prayer for Mad Sweeney”, para mim, elas serão mais que bem-vindas.

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  • Daniel Prado

    A sequência onde Sweeney joga algumas moedas na estrada tem dupla interpretação. Ele pode estar ofertando as moedas à Easter, representada pelo coelho branco, ou pode estar pagando pelo sorvete que acabou de abrir. Sendo um Leprechaun, ele é uma entidade que troca favores, mantendo um equilíbrio. O coelho causar o acidente pode representar uma intromissão da Easter, que viu aonde o Sweeney e a Laura estavam, prestando um favor tanto ao Leprechaun, quanto à Wednesday.
    Mas pela reação final do Sweeney, acredito que o acidente foi causado a pedido de Wednesday e as moedas jogadas na estrada foram só uma infeliz coincidência.

    • Humberto Luiz

      Acho que o segundo acidente n teve nd a ver com o Wednesday ou com o Mad, creio q ele so jogou as moedas pq podia, ou pq precisava pagar o sorvete, mas ja deixaram bem claro q a moeda da sorte de vdd é a q ta com a Laura (e n sei se interpretei certo, mas me parece ser a mesma moeda q a Essie ofertou a ele).
      Reluto em dizer q o coelho n tinha nd aver com a Easter, ate pq ele n aparece so na hora do acidente, mas antes tbm. De qualquer modo, acho q foi tudo a má sorte do Mad msm

      • Daniel Prado

        Não é a mesma moeda. Se rever o primeiro episódio vai ver que são bem diferentes.
        Quanto ao coelho, pelo fato do Wednesday estar ao mesmo tempo visitando a Easter, acho que pareceu muito mais um “favor” dela vigiar aonde o Sweeney estava e interferir para evitar que a Laura chegasse perto do Shadow de novo.

  • Skalako

    Esse episódo teve o sabor (e a delícia) de um quindim ainda quente, recém saído de um forno artesanal. Já quanto, o episódio, até ontém, já tinha visto quatro vezes. Mas, triste com o imenso espaço de tempo que a sua volta para a segunda temporada terá, ainda que falte um para o encerramento da primeira temporada. Obrigado e parabéns pelo texto tão soberbamente inspirado e escrito da autora.

  • Ademar Couto

    O ritmo desta estória é de dar gosto aos que curtem a leveza do conto, a cultura bretã pré e pós saxônica e ao amálgama que rendeu um saboroso episódio. Difícil dizer qual melhor, mas este foi memorável. Pra quem sabe que a viajem começa a ser saboreada bem antes da chegada.

  • Ka

    Não curti. Pelo visto serão três episódios de história e o resto de filler. Estender tanto a história vai deixa-la cansativa, e com altas chances de nos deixar na mão com um eventual cancelamento. Uma dó.

  • Fawks

    Uma coisa precisa ser feita: tirar o chapéu para o Starz. Não sou apegado a detalhes técnicos, mais é belo ver o empenho do canal em não deixar a peteca cair com relação a produção e ao cuidado visual das séries atuais. O figurino, a fotografia e as trilhas sonoras são excepcionais para uma série, é interessante ver que tanto Outlander quanto Black Sails também tem o mesmo diferencial.

    Quanto a história, eu costumo ser bem impaciente com séries em geral, até mesmo com livros quando o assunto são cenários paralelos ao principal e me intriga o quão bem American Gods consegue prender a atenção mesmo sem Shadow e Wednesday, Mad Sweeney, Laura e principalmente Essie, formam um episódio tão bom que eu me recuso a reclamar por postergarem o núcleo central da história durante um capítulo inteiro. Como disse a Rafaela no review, a história será saboreada lentamente. E eu rezo para a série sobreviver até a última gota do conto.

  • Tiago Sampaio Rodrigues Evo

    Ótima analise, eu só acrescentaria que além do remorso, Mad Sweeney deveria receber a moeda de bom grado de quem a obtém, se ele pegasse sem o favor da Dead Wife, a sua sorte não retornaria!