Review de “The Secret of Spoon”, 2° episódio de “American Gods”

Seu último movimento antes de dormir é unir as mãos em prece ou utilizá-las para ver pela última vez as mensagens no smartphone? Seus ídolos são simbolizados por estatuetas de barros, animais míticos ou fotografias de celebridades do entretenimento? Você pede alívio aos deuses nos momentos de desesperos ou se distrai da frustração com uma maratona de filmes e seriados assistidos em telas de tablets ou computadores? Você entra em transe ao ritmo de cânticos xamânicos ou enquanto dança em uma festa a sob a regência hits musicais do momento reproduzidos por um DJ? Se você escolheu as segundas opções, seus hábitos refletem o cenário fictício mostrado em “American Gods”.

Ritos religiosos tradicionais podem perder espaço na rotina da humanidade do terceiro milênio, mas o ato de adoração permanece. Apenas transferimos a nossa veneração para outro foco e formulamos novas entidades para cultuar, ainda que não a chamamos assim. Nós as conhecemos como tecnologia e mídia – ambas nossas invenções, porém às quais nos submetemos. Em “American Gods”, ao mesmo tempo em que os deuses modernos se infiltram pouco a pouco na vida de Shadow (Ricky Whittle), é possível ao telespectador ganhar consciência do tributo que paga a esses ídolos contemporâneos.

REFLEXÃO
Se o primeiro episódio serviu como uma introdução ao universo criado por Neil Gaiman, o segundo confirma que, como acontece com o livro, a série entretém ao mesmo tempo em que provoca reflexões sobre a cultura norte-americana. Ou seria melhor dizer, a sociedade ocidental como um todo. Servir como um espelho, mesmo que com uma moldura fantasiosa, sobre a mentalidade, o comportamento e a política de uma grande parte da humanidade atual seria talvez a melhor qualidade do seriado.

Mais uma vez representando o telespectador, Shadow se encontra no fogo cruzado entre deuses de eras diferentes, ainda que não saiba. O protagonista do seriado termina “The Bone Orchard” vítima do Technical Boy (Bruce Langley), deus da tecnologia, tão impositivo quanto os avanços dela. Como os aparelhos hi-tech, seus efeitos e seu cenário são impressionantes. Como os trolls da internet, ele utiliza capangas para promover linchamento de quem o contraria. Só que em vez de perseguição virtual, os atos que ele comandam são físicos.

A imagem de Shadow agredido por um grupo de seres antropomorfos sem face, mas com compleição clara perturba não só por mostrar o herói em perigo. Ela remete, ainda que talvez sutilmente, às violências sofridas por negros ao longo da história dos Estados Unidos. Mesmo no século 20, descendentes de africanos foram atacados em linchamentos praticados por brancos: muitos foram espancados, esfaqueados, enforcados ou queimados. A corda que prende Shadow não só funciona como um símbolo importante para a trama do livro “Deuses Americanos” (que provavelmente reveremos no futuro do seriado) como também serve para falar de crimes de ódio da realidade.

O prólogo do segundo episódio, “The Secret of Spoon” dialoga também com a questão do racismo, trazendo outras reflexões sociais para o espectador que vão além da questão de crença em deuses antigos ou dependência dos deuses novos. A cena de “Chegada à América” mostra como negros presos e transportados em navio de escravos conjuraram uma versão norte-americana do deus africano Anansi (Orlando Jones). Como no folclore antigo, ele toma a aparência de uma aranha e conta histórias. O relato que Anansi faz aos homens que o invocaram é de seu futuro. Ele narra como séculos de opressão e violência os aguarda, como mesmo quando não fossem mais escravizados, os negros seriam discriminados e atacados pela polícia.

A parte final do relato faz referência às mortes de jovens afro-americanos baleados (às vezes com policiais como principais suspeitos de puxar o gatilho), como a de Tayvon Martin, em 2013, ou Michael Brown e Eric Garner em 2014. É em nome deles que são realizadas as campanhas de movimentos como o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), importante para eleição de 2016 nos Estados Unidos. Com o linchamento de Shadow e com o prólogo, duas das cenas mais poderosas até agora, “American Gods” deixa óbvio sua pertinência como reflexão política. O mérito do seriado é que essas questões mais sérias são levantadas com um bom encaixe na trama, sem desviar dela.

MISSÃO
O episódio logo retoma à trajetória do protagonista. Shadow consegue sobreviver à tentativa de enforcamento, sem saber quem o acudiu massacrando os agressores. Apesar de perturbado com os últimos acontecimentos, ele prossegue com a prestação de serviços a seu novo contratante Wednesday (Ian McShane). Depois de passar três anos na prisão, ficar sem emprego, perder a esposa e descobrir que ela não só morreu com o pênis de um amigo mútuo na boca, como também recebeu fotos do mesmo órgão pelo smartphone (Será que podemos dizer que a tecnologia está atormentando Shadow novamente?), não há muitas outras formas de seguir em frente. Aliás, ponto positivo para a abordagem de uma troca de nudes, que cria um impacto no personagem que a encontra, retrata um hábito comum na nossa atualidade e mostra a onipresença da tecnologia, participante até da intimidade das pessoas.

Shadow ganha uma nova missão: conduzir Wednesday a locais onde encontrarão pessoas peritas em áreas diferentes com quem precisam entrar em contato. Apesar de conseguir um aumento de salário, o que ele não recebe é informação sobre acontece a sua volta. “Pistas não fazem parte do acordo”, explica Wednesday.

É com esse estado de espírito, que Shadow é introduzido a outro dos novos deuses: Mídia (Gillian Anderson). Ela é menos jovem, mas bem mais afável que Technical Boy. Mídia se apresenta a Shadow em um ambiente prosaico e com um rosto familiar. Essa é a natureza da deusa, onipresente em nas casas e estabelecimentos comerciais que frequentamos.

Como na nossa realidade, ela se manifesta por meio de atores, músicos, âncoras de jornal e personagens a quem nos afeiçoamos. No caso de Shadow, a deusa se apresenta a ele em televisores de uma loja de departamento com o rosto de Lucy, protagonista de “I Love Lucy”, seriado transmitido originalmente entre 1951 e 1957 para o telespectador norte-americano. Um ícone dos Estados Unidos e como todos os ícones tão reconhecível por lá quanto as divindades em civilizações antigas. Bem caracterizada, bem interpretada e sedutora, a personagem de Gillian Anderson faz uma proposta a Shadow, tentando torná-lo seu aliado.

Porém, mais do que atraí-lo, conversar com uma figura em um televisor o faz duvidar da própria sanidade. O questionamento sobre estar ou não louco é breve. Em sintonia com a personalidade de Shadow no livro, o protagonista do seriado aceita fácil (ou, pelo menos, com maior facilidade que você ou eu teríamos) as estranhezas que acontece a seu redor.

VISITA
Enquanto os deuses novos tentam cada um de sua forma engajar Shadow, Wednesday contra-ataca fazendo convites a outras pessoas. A primeira parada é uma residência modesta de Chicago. Para Shadow e para nós, suas intenções ainda são vagas. Duas coisas são perceptíveis: 1) Wednesday precisa de ajuda para algo perigoso; 2) As pessoas que ele precisa atrair são deliciosamente excêntricas e fascinantes, embora decadentes.

Uma atenção maior a nomes, personalidades e sotaques revela que Shadow e Wednesday visitam deuses antigos. No caso, entidades das crenças eslávicas. E sim, elas retratam a situação dos objetos de crenças tradicionais no universo de “American Gods”. Enquanto os deuses novos dominam aparelhos do cotidiano, surgem em limusines futurísticas, manipulam o ciberespaço ou as transmissões midiáticas, os deuses antigos vivem como pessoas comuns, envelhecidas ou em processo de enfraquecimento. Não poderia ser diferente, eles são “uma má lembrança”, peças de museus, quando não praticamente esquecidos.

Entre eles estão as irmãs Zorya, originalmente entidades eslávicas que protegem o mundo contra o juízo final e também conhecidas como as auroras. Em “American Gods”, elas aparentam ser senhoras russas que sabem ler a sorte na borra de café.

Elas vivem em um apartamento com Czernobog (Peter Stormare, em uma atuação magnética). Ele é uma versão norte-americana da divindade Chernobog, o deus eslávico da escuridão, considerado maligno em contraposição a seu irmão, Bielobog, o deus luminoso. Na atualidade dos Estados Unidos, ele aparenta ser um homem simples que trabalha abatendo vacas. Para sua tristeza, o trabalho é feito sem que possa exercer seu talento de matar com golpes de marreta, já que na atualidade os animais são mortos como armas de pressão. Czernobog poderia ser um forte aliado para Wednesday, mas não é receptivo a ele.

Com objetivo de resolver o impasse, ele desafia Shadow para uma partida de damas. Se Shadow ganhar, Czernobog colaborará com Wednesday, caso contrário, terá o prazer de voltar a utilizar sua marreta – contra o cérebro de Shadow. Vale notar, que relatos de heróis desafiados por deuses são aventuras recorrentes em mitos de diferentes regiões do mundo. Os deuses gostam de brincar com humanos. Shadow perde e mais uma vez termina o episódio em uma situação de perigo.

American Gods” continua a funcionar como uma adaptação fiel à essência do livro (com leves modificações), com boas representações dos personagens originais, elenco competente, sem censuras para nudez ou violência, e fotografia bem elaborada. No segundo episódio, a trama segue um ritmo menos acelerado do que o primeiro, o que provavelmente ajuda o telespectador não-leitor a assimilar melhor os acontecimentos. E mais uma vez insisto, a série prende atenção do público que aprecia uma boa fantasia, porém não se limita a ser um produto do entretenimento. Ela traz discussões relevantes sobre as quais vale a pena respirar um pouco após assistir os episódios e refletir.

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  • Diego Miguel

    Eu fico deslumbrado com essa serie….

  • müller

    muito bom!

  • SEUS TEXTOS ESTÃO INCRÍVEIS!!! PARABÉNS!

  • Halisson Santos

    Quando eu crescer, quero escrever q nem você!! S2